Camisa de Vênus – 09-05-2015 – Rio de Janeiro (Circo Voador)

Camisa de Venus - RJ - mai-2015 - por Arony Martins-14

Texto por Arony Martins – Fotos por Arony Martins – Edição por Rodrigo Gonçalves e André Luiz

Rio de Janeiro, Lapa, Circo Voador, 17 de dezembro de 1983. Teria sido um dia como qualquer outro. Mais uma banda se apresentaria naquele palco que vinha se tornando uma referência para o nascente rock nacional. Eis que Marcelo Nova, Robério Santana e seus companheiros fariam ali não somente a primeira apresentação do Camisa de Vênus em solo carioca. Aquela noite ficaria marcada como o dia em que Raul Seixas conheceu esse grande nome do rock and roll brasileiro. Ali nasceu uma das mais importantes parcerias de nossa música. Muitas coisas ocorreram a partir dali. A banda se desfez em 1987, após uma longa e exaustiva tour. Nova e Raul gravaram o ótimo ´Panela do Diabo´, aquele que seria o último disco do Rei do Rock. Os músicos ao logo dos anos 1990 e 2000 tentaram algumas reuniões, mas sem muito sucesso e enfim, após anos, é anunciada para delírio dos fãs uma tour em comemoração aos 35 anos do grupo. E qual o lugar escolhido para dar início a essa nova história? O Circo Voador. Como disse Marcelo ao longo de sua apresentação em terras cariocas, ‘Não faria sentido começarmos em outro lugar!’. E começaram muito bem.

Escalados para fazer a abertura do histórico evento, a banda Beach Combers fez uma apresentação sólida e bastante divertida. O trio carioca de Beat Music, formado em 2009, tem em seu line up os músicos Bernar Gomma (guitarra), Guzz The Fuzz (baixo) e Lucas Leão (bateria). O grupo notabilizou-se por se apresentar nas ruas da cidade e para sua apresentação, trouxe em seu repertório músicas instrumentais como “Rei da Praia”, “Cheirar cola não faz bem” e “Mistério do Catamarã”. Muito influenciados pela surf music e também pelo rock psicodélico, a banda fez uma apresentação bastante competente, chamando a atenção do ainda reduzido público presente. Quem assistiu seguramente ficou satisfeito com o que ouviu.

Finalizado o show de abertura, era só aguardar o início do show que todos mais esperavam. Foram anos aguardando. Algo curioso ocorrido foi o aumento repentino do público que em poucos minutos antes do início da apresentação lotou a pista e as arquibancadas do Circo. E assim, aos gritos eufóricos de “Bota pra fudê!”, título da música que abriu o show, um reformado Camisa de Vênus adentrou o palco cumprindo com os pedidos de todos e fazendo com que os mesmos abrissem largos sorrisos. A formação de 2015 é bem diferente daquela que se apresentou há 32 anos. O atual line up conta além de Marcelo Nova e do baixista Robério Santana, com Célio Glouster (bateria), Leandro Dalle (Guitarra) e Drake Nova (Guitarra), filho de Marcelo.

Na sequência a banda executou “Hoje” que precedeu a mais do que conhecida “Bete Morreu”. Ao desejar boa noite aos presentes Marcelo contou um pouco da história da banda ao conversar com o público e dizer que “há muito tempo atrás, quando muitos de vocês ainda eram espermatozoides em sacos escrotais, nós deixamos salvador e o primeiro porto onde atracamos foi aqui”, numa clara referência à importância que o Circo Voador tem para a banda.  Seguido de “Rostos e Aeroportos”, o concerto contava àquela altura com ótimo público que cantava todas as músicas letra por letra, frase por frase.

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Antes da execução de “Deus, me dê Grana” Nova diz a todos com um tom bastante irônico que essa canção “agora talvez seja mais relevante de que quando ela foi feita!”. E seguramente um dos pontos mais interessantes da apresentação da banda é todo o sarcasmo contido na performance de Marcelo Nova.  E assim antes de “Gotham City” o vocalista jogou água no público como se estivesse concedendo uma benção e disse “muito prazer, eu sou o Padre Marcelo”, arrancando muitas risadas dos presentes.

O concerto continuou passeando pela história do grupo e trouxe aos fãs mais canções como “Negue”, “Passatempo” e “A Ferro e Fogo”. E antes de “Muita estrela, pouca constelação”, Nova, principal letrista do grupo, anunciou que aquela música foi a primeira da longa parceria formada com Raul Seixas e a dedicou ao Roberto Frejat, vocalista do Barão Vermelho, que estava presente acompanhando o show.

Para a introdução de “Só o fim”, versão em português do clássico “Gimme Shelter” do Rolling Stones, o ótimo guitarrista Drake Nova, utilizou um pequeno violão de quatro cordas. Ao reconhecer os primeiros acordes da canção, o público demonstrou o quão bem se sentia fazendo com que provavelmente aquele tenha sido um dos momentos mais cantados de todo o repertório.

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Em meio aos incessantes gritos de ‘bota pra fudê’, Marcelo anuncia que a próxima canção era mais uma daquelas que provavelmente fariam mais sentido hoje do que quando foi composta. Estávamos diante de “O Adventista”, e o Circo veio abaixo com o fantástico coro de “não vai mais haver amor neste mundo nunca mais!”, e também com a ótima performance de Nova e Robério Santana. A apresentação continuou passando pela versão blueseira de “My Way”, conhecidíssima canção imortalizada nas vozes de Frank Sinatra e Elvis Presley. Para finalizar um pot-pourri: “Simca Chambord/Be bop a lula/Shake, rattle and rock”.

A irreverência e visão crítica sobre as coisas é uma das características mais marcantes de Marcelo Nova. E nesse sentido, ao fim da apresentação o vocalista não deixou o palco e imediatamente disse ‘esse negócio de bis é um pé no saco, é tudo combinado’ e fez um acordo com a plateia que concordou imediatamente: ‘vamos passar por cima disso e continuar daqui mesmo’. Faltavam duas canções as quais os fãs jamais os perdoariam caso não as apresentassem, “Eu não matei Joana D´arc” e “Silvia”. Ambas foram muito festejadas pelo público que não deixou de acompanhar a banda por um minuto sequer.

O que podemos dizer de uma apresentação como a ocorrida? Que mesmo com uma jornada dupla (assumi a parte de fotografia e redigi esta resenha) e tantas responsabilidades em torno do evento, me diverti como há muito tempo não me divertia. E seguramente quem esteve no Circo Voador em 09 de maio de 2015 saiu de lá com a impressão de que assim como em 1983, aquela noite também entrou para a história. Agradecimentos à assessoria de imprensa do Circo Voador na pessoa de Rê Reis pelo credenciamento de nossa equipe no evento e também à Lencinho da comunicação e Pedro Montenegro pelo apoio durante o show.

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