Momento Nostalgia: os 10 melhores álbuns de Metal Melódico (Power Metal) dos anos 90 – Parte I

Texto por Leko Soares – o conteúdo expresso reflete a opinião do autor, é de inteira responsabilidade deste

Um tempo atrás, relembrando um papo que tive com meu irmão acerca de bandas que ouvíamos entre meados dos anos 1990 e início do século XXI, me ocorreu a ideia de montar uma lista com os melhores álbuns do Metal Melódico da década de 90. Para justificar a lista, cabe antes, um preâmbulo sobre o estilo em questão e os critérios utilizados aqui.

Sobre o declínio do estilo
O Heavy Melódico ou Power Metal – como convencionalmente passou a ser rotulado nos últimos anos –, seja por radicalismos enraizados ou pelo velho hábito de surfar nas tendências do que o mercado europeu e norte-americano consome, tem se tornado um gênero dentro do Metal frequentemente marginalizado por boa parte da cena brasileira. Ainda que essa tendência não tenha se consolidado em outras partes do mundo, onde o estilo ainda resiste e figura em grandes festivais, é inegável a constatação de que boa parte do protagonismo alcançado entre meados dos anos 90 e início do século XXI, já figura como pintura velha em alguma moldura empoeirada do passado.

São várias as razões que incorrem no declínio de determinado estilo musical, e no caso do “Heavy Metal Melódico”, é possível com facilidade enumerar algumas:

1 – Com o crescimento do número de fãs, a demanda por novas bandas fez com que o mercado em determinado momento se saturasse de grupos do estilo, resultando em cópias mal feitas de cópias pouco inspiradas das originais (algo semelhante ao que ocorreria com o “Ghotic” Metal e o “Death Metal Melódico” nos anos 2000 e com a cena Folk atual).

2 – As principais bandas da década de 90, já no começo dos anos 2000 começaram, em dado momento, a de fato, “morderem o próprio rabo”, se estagnando criativamente e repetindo fórmulas disco após disco. Álbuns como ‘Elements pt. I’ e ‘II’ do Stratovarius, ‘Symphony Of Enchanted Lands pt.II’ do Rhapsody, o auto intitulado do Labyrinth e ‘Rabbits Don’t Come Easy’ do Helloween servem como ilustração perfeita da falta de ‘combustível criativo’ do período.

Apesar dessas rachaduras, qualquer ouvida mais atenta ao catálogo dessa galera na época áurea do estilo vai deixar claro que, fale o que quiser, a cena tinha muita qualidade e inspiração, e por isso se popularizou tanto até o final do último milênio.

A Lista
Sobre a lista, é lugar-comum afirmar que ela se baseia apenas em escolhas pessoais e não pretende em nenhum momento se tornar uma lista definitiva do estilo, já que cada fã e seguidor do gênero naquele período ou nos dias de hoje, tem enraizada em sua memória afetiva suas próprias escolhas. A intenção aqui, antes de mais nada, é criar um pequeno guia inicial pra quem pretende se aventurar ou até mesmo redescobrir o estilo.

Os critérios que utilizei para a montagem foram:

  1. a) limitar a lista a um álbum por banda;
  2. b) levar em conta a relevância do álbum no momento de seu lançamento e sua reverberação futura como fonte de inspiração e ‘tutorial’ do estilo;
  3. c) minha memória afetiva e a importância que esses álbuns tiveram na minha formação como músico do estilo.

Segue a primeira parte da lista:

10.Vision Divine – Vision Divine (1999)

Para resumir o impacto do lançamento do álbum homônimo do Vision Divine à época, lembro que um grande amigo chegou a tatuar o anjo da capa em seu próprio braço. Esse foi o álbum que trouxe o Vision Divine ao Brasil em uma tour conjunta com o Labyrinth, durante uma época em que shows internacionais de Metal ainda não eram tão frequentes por aqui. A banda que contava em sua formação com o guitarrista Olaf Thörsen – mentor do Labyrinth – e com o vocalista Fabio Lione – já bem conhecido por aqui devido aos seus trabalhos com o Rhapsody e Angra –, apresentava no seu debut um trabalho ousado, além das estruturas convencionais do estilo, flertando abertamente com o Progressivo. Destaque para “New Eden”, “Black Mask Of Fear”, “Vision Divine” e o cover inesquecível de “The Final Countdown” do Europe.

Sugestão: “Black Mask Of Fear”

9.Iron Saviour – Iron Saviour (1997)

Iniciado como um projeto do vocalista e guitarrista Piet Sielck, a estreia do Iron Saviour contava com uma constelação de grandes músicos da cena melódica do período. Só pra sentirem o drama, entre line up fixa e participações, o álbum contava com Kai Hansen (Helloween, Gamma Ray) , Hansi Kursch (Blind Guardian), Thomas Nack (ex- Gamma Ray), Thomen Stauch (Blind Guardian) dentre outros. Os destaques ficam para “Watcher In The Sky” – também gravada pelo Gamma Ray – e a faixa que leva o nome da banda cujo refrão resiste facilmente ao tempo.

Sugestão: “Watcher In The Sky”

8.Hammerfall – Legacy Of Kings (1998)

Embora “Glory To The Brave” tivesse chamado a atenção do público um ano antes, foi com “Legacy Of Kings” que o Hammerfall conseguiu espaço no primeiro time do Metal Melódico da época. Fortemente influenciado pela cena clássica do Heavy Metal germânico da década anterior, o grande feito da banda foi conseguir se inserir no conceito Melódico mesmo tendo inspirações mais tradicionais. O grande ‘culpado’ por essa inserção foi o vocalista Joacim Cans, dono de uma voz lírica, que, ao contrário dos dias de hoje, foi o trunfo para que a banda caísse nas graças da galera à época. Sobre o álbum, cabe destacar a fase inspiradíssima das composições. Praticamente todas as faixas aqui são candidatas à hinos e clássicos do estilo até hoje, mas cabe destacar nesse quesito as fortes “Let The Hammer Fall”, “Stronger Than All”, a abertura visceral com “Heeding The Call” e a faixa-título.

Sugestão: “Let The Hammer Fall”

7.Labyrinth – Return To Heaven Denied (1998)

 

Também conhecida como “a primeira banda de Fábio Lione”, esses italianos figuraram como um dos grandes expoentes do Metal Melódico nos fins dos anos 90. O motivo desse destaque é facilmente explicável com a audição de ‘Return To Heaven Denied’, uma pérola atemporal e que serve como exemplo positivo de como o Heavy Metal Melódico pode – quando feito com alma e bom gosto – aliar peso, melodias cativantes e técnica, sem soar datado. A sonoridade do álbum é guiada pela dupla Olaf Thorsen e Anders Rain à frente das guitarras, despejando bons riffs e solos muito bem construídos durante todo o álbum. A técnica de arpejos utilizada em faixas como “Moonlight” e “New Horizons” reverberaram na maioria das bandas do estilo que surgiriam nos anos 2000, porém, raramente usadas com tanta felicidade como pela dupla italiana. Mas o álbum vai bem além das guitarras e tem como característica marcante as vocalizações de Rob Tyrant, dono de um timbre peculiar que se encaixou perfeitamente à sonoridade da banda, entregando linhas de vocais e refrãos marcantes em praticamente todas as faixas. A cozinha aqui é muito bem executada por Chris Breeze (baixo) e Frank Andiver (bateria em estúdio) e tem o importante mérito de não soar datada ou ‘programada’ como a grande maioria das bandas atuais do estilo. Por fim, não dá pra falar de ‘Return…’ sem citar os muito bem arranjados teclados de Andrew Mc Pauls que em vários momentos durante o álbum consegue roubar a atenção do ouvinte tamanho o bom gosto e relevância das melodias entregues pelo músico. Além das faixas iniciais citadas, cabe destacar a instrumental e bem moderna pra época “Feel”, a faixa título e sua cadência interessantíssima, a forte “Thunder” e a belíssima balada “Falling Rain”, um dos hinos das minhas festas de adolescente rsss.

Sugestão: “Moonlight”

6.Helloween – The Time Of The Oath (1996)

Estaria facilmente em um top five das obras definitivas dos criadores do estilo. Essa simples afirmação já justifica a força e relevância deste petardo criado pelos mestres alemães da melodia. Ainda que contestado na época, devido ao “fator Andi Deris”, o renascimento do Helloween dentre as principais bandas do estilo passa necessariamente por “The Time Of The Oath”. É certo que, em uma análise atual, o antecessor “Master Of The Rings”, de 1994, já demonstrava muita força e inspiração e também pode hoje postular como um dos grandes na vasta discografia da banda. Porém, na época, marcado pelo choque da mudança drástica entre Michael Kiske e Andi Deris, o álbum que viria a recuperar a relevância e respeito do Helloween na cena, definitivamente é esse que vos resenho agora. O motivo é a força e ousadia destilada ao longo de toda a obra que tem como marca registrada uma grande variedade de estilos e nuances explorada pela banda, chegando nesse quesito a lembrar o que bandas clássicas como The Beatles, Queen e Pink Floyd faziam com maestria no passado, mas que no Metal em geral, é algo raro de se ver, até mesmo nos dias atuais. Vejamos: Temos aqui desde pedradas como “We Burn” e “Before The War”, hinos melódicos como “Power”, “Wake Up The Mountain”, épicos do calibre de “Mission Motherland” e “The Time Of The Oath” e canções que remetem às belas baladas do Rock n’ Roll Sessentista como “Forever And One” e “If I Knew”. Considero esse o trabalho mais inspirado da dupla Weikath/Grapow que além dos solos inspirados de sempre, entregam aqui autênticos duetos “Helloweenícos” que fizeram e ainda fazem a cabeça de qualquer fã do estilo. A cozinha Grosskopf/Küsch soa pesada e inspirada além do normal e por fim, enxergo hoje esse álbum como um manifesto de “chutação de bundas de viúvas” feito por Andi Deris que conseguiu mostrar que sim, ele estava à altura do cargo que ocupava (ao menos em estúdio, rs). Se existe algum álbum merecedor do título ‘Keeper III’ na discografia do Helloween, esse álbum é o ‘The Time Of The Oath’.

Sugestão: “Kings Will Be Kings”

 

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