Epica: uma viagem entre filosofia, ciência e futurismo – entrevista exclusiva com Simone Simons

Entrevista por Alvaro Ramos – Pauta por André Luiz e Alvaro Ramos – Imagens por Edi Fortini e divulgação – Edição por André Luiz

Em meio a quinze anos de carreira, podemos dizer que o álbum The Holographic Principle’ ilustra perfeitamente a maturidade musical alcançada pelo Epica. Em divulgação de seu sétimo trabalho de estúdio, a banda holandesa excursiona há quase oito meses pelo mundo, ao lado de nomes de peso como Lacuna Coil, Arkona e The Agonist, porém escolheu sua terra natal e o Brasil para o início da tour através de seu festival próprio Epic Metal Fest – um verdadeiro presente aos fãs brasileiros.

Em um bate papo exclusivo com o Portal Metal Revolution, a vocalista Simone Simons comentou sobre o mais recente álbum e seu período na estrada, o lançamento da tour com o Epic Metal Fest em 2016 no Brasil e Holanda, explicou os processos de composição que permeiam os temas dos últimos discos do Epica, opinou sobre o cenário musical atual citando desde as novas mídias até a presença feminina liderando bandas das mais distintas vertentes e avisou aos brasileiros: nos encontraremos novamente em breve.

Equipe MR – Agradecemos pelo seu tempo e pela entrevista, Simone. Passados quase oito meses das edições do Epic Metal Fest em Tilburg (Holanda) e em São Paulo, eventos estes que foram escolhidos para o lançamento ao grande público do mais recente trabalho do Epica, ‘The Holographic Principle’, como você avalia a repercussão do festival? Após a primeira edição no Brasil, vocês pensam em levar o festival para outros países, ou até mesmo repeti-lo em São Paulo?
Simone Simons –
Bem, nós lançamos ‘The Holograph Principle’, nosso sétimo álbum de estúdio, e estamos fazendo muitos shows desde que foi lançado. As novas músicas estão sendo muito bem recepcionadas pelo público nos shows, e devo dizer que há muitas músicas que soam super bem ao vivo, como “Universal Death Squad” e “Ascenscion”, elas realmente arrebentam ao vivo e os fãs adoram! O Epic Metal Fest que nós fizemos na Holanda e no Brasil foram um sucesso, e foi um sonho para nós fazer algo assim. O Brasil é um dos primeiros países que vem na cabeça quando pensamos em turnês pelo mundo afora, para realmente irmos ao outro lado do mundo. E também fazê-lo dentro da Europa foi uma ótima experiência.  Nós estamos pensando sobre um próximo país para receber o Epic Metal Fest, mas temos muitos outros projetos no momento. Apesar disso, é algo que nós definitivamente continuaremos fazendo, pois podemos aprender muito sobre como organizar um festival, podemos crescer. É algo diferente de fazermos apenas uma tour sozinhos, você tem que contatar e convidar bandas para tocar no festival, e por aí vai.

Equipe MR – A maioria dos fãs e artistas sempre falam do Brasil pelos fãs fervorosos e apaixonados. Nos últimos anos você já passou por aqui diversas vezes, vindo com o Epica, Kamelot… Para você, quais são as principais lembranças e coisas que te agradaram durante as passagens por aqui?
Simone Simons –
Nós somos tão apaixonados pela música, a cultura, a comida, o clima, as praias, os drinks… (risos) Eu acho que todas as bandas gostam disso. Acredito que não haja alguma banda que já tenha excursionado pelo Brasil e nunca tenha tomado uma caipirinha!

Equipe MR – Nos últimos dois álbuns, os temas mais trabalhados vêm sendo conceitos futurísticos e filosóficos, diferentes de alguns dos trabalhos anteriores. De onde surgiram tais conceitos presentes tanto no ‘Quantum Enigma’ quanto no ‘The Holographic Principle’?
Simone Simons –
As letras são muito filosóficas, mas eu acho que no ‘Quantum Enigma’ falamos sobre um universo projetado. Mark é muito ligado em cálculos e física quântica, e também se inspira em alguns cientistas através de livros e documentários. Então ele veio com a ideia das músicas, e trouxe para nós escrevermos. Ele escreveu para algumas das letras que ele mesmo compôs, e na banda nós temos cinco caras que escrevem. Mark pega algumas das músicas que compõe e coloca as letras, e em outras ele apenas me passa as diretrizes do que ele pensou sobre a música, ele não impõe a forma exata de como deve ser feito. Eu tenho mais o lado filosófico, ele tem os fatos e o mundo da ciência… Então eu, com meu lado mais filosófico, escrevo algumas das letras. Eu sempre amei filosofia, então normalmente escrevo para as baladas principalmente, porque é algo que combina mais com uma mulher fazer, e eu tenho o jeito para isso.

Equipe MR – Há menos de um mês o Epica lançou em seu canal oficial do Youtube um vídeo com a versão ao vivo em Paris da faixa “Dancing In A Hurricane”. Fale um pouco sobre como é o processo de escolha das músicas novas e antigas que serão tocadas nos shows, e também sobre como se deu a ideia do lançamento desta versão ao vivo em vídeo?
Simone Simons –
As músicas novas são muito boas ao vivo. “Dancing In A Hurricane” soa muito bem (ao vivo), nós a tocamos junto com “Ascencion / Dream State Armagedon” e depois “Dancing In A Hurricane”, e os fãs amam isso. Nós também tentamos ver com os fãs as músicas mais desejadas, e também os set lists de shows que fizemos em seus países anteriormente, quais músicas já tocamos anteriormente, para não tocarmos toda vez as mesmas. Vemos também quais ficam mais legais ao vivo… Em cada CD que você compõe, há algumas canções que soam melhor ao vivo, outras já soam melhor nos álbuns, por exemplo, as músicas que são muito longas, apesar de haver algumas exceções como “Kingdom Of Heaven”, do álbum ‘Design Your Universe’, que soa super bem ao vivo. Mas se você colocar muitas músicas com 10 minutos ou mais de duração, o público pode acabar ficando um pouco entediado. Nós temos que achar uma forma de balancear isso para que o set list flua de uma maneira boa. Então nós temos um “esqueleto” de set list, mas sempre acrescentamos e mudamos algumas coisas. Isso mantém os fãs animados, e nós também ficamos.

Equipe MR – Você é sem dúvida alguma uma das principais frontwomen do Metal, que é um meio que por muito tempo foi e ainda é machista em diversos aspectos. Como você costuma lidar com esta questão, e quais as principais mudanças que você enxerga no cenário de hoje se comparado a quando você iniciou sua carreira com o Epica?
Simone Simons –
Bom, eu me lembro de quando eu comecei, 15 anos atrás. Ainda não haviam muitas bandas de metal com mulheres nos vocais, e normalmente se havia eram apenas em bandas de metal gótico ou sinfônico. Hoje em dia continuamos em uma minoria, é claro, mas hoje existem vários outros tipos de bandas com vocais femininos nos mais diversos estilos de metal, como o Arch Enemy, Otep, The Agonist, só para nomear algumas. Essas não são bandas de metal sinfônico, mas elas têm vocais femininos.  Então hoje em dia quando falamos sobre uma “banda de vocal feminino”, isso já não diz mais nada sobre o estilo da banda, pois podem ser diversos. É até um (termo) tanto quanto ultrapassado, para falar a verdade.

Equipe MR – Ainda abordando sobre a evolução de mercado, quais são as principais diferenças que você enxerga na indústria fonográfica desde que houve esse “boom” tecnológico que estamos vivendo nos últimos anos? Quais as principais vantagens e desvantagens que as bandas podem tirar disso?
Simone Simons –
Eu tento enxergar um lado mais positivo nisso, pois essa é a forma que a música veio se desenvolvendo, as pessoas baixam músicas ilegalmente, mas é claro que há também Spotify e outras formas populares de ouvir música de forma legal, e apesar de a banda receber uma quantia muito pequena por isso, as pessoas se conscientizam de que elas devem pagar pela música, a música não vem de graça. Nós (as bandas) passamos dois anos do nosso tempo escrevendo um álbum que você pode baixar em um minuto. Isso faz com que a música pareça tão sem valor… Pelo outro lado, nós fomos uma das primeiras bandas a ter um website com um fórum, quando ainda não havia Facebook e o MySpace mal estava começando. Não haviam muitas oportunidades para se comunicar com os fãs, e essa é uma coisa muito boa do YouTube e mídias do tipo. Muitas vezes os fãs gostam da banda e não tem dinheiro ou condições de viajar para assistir ao show, mas ainda assim podem ter acesso aos nossos vídeos e curtir a nossa música.  Então eu tento ver de uma forma positiva, e uma coisa boa na cena do metal é que os fãs são colecionadores. Nós sempre temos pedidos de fãs para que lancemos edições de colecionadores dos álbuns, e também fazemos sempre novos tipos de merchandising, que os fãs sempre compram nos shows, e isso permite com que continuemos fazendo nossa música, o que as pessoas parecem gostar.

Equipe MR – Muito obrigado pela entrevista Simone, deixamos espaço para você mandar um recado aos leitores do Portal Metal Revolution e fãs do Epica no Brasil
Simone Simons –
Eu gostaria de agradecer a todos por apoiarem o Epica, por estarem conosco durante esta jornada especial, e eu espero que os fãs continuem com a gente no futuro. Nos encontraremos novamente em breve!