Dark Tranquillity: não temos que nos adaptar, preferimos soar como algo novo e original – entrevista exclusiva com Mikael Stanne

Entrevista por Alvaro Ramos – Pauta por Alvaro Ramos – Imagens por divulgação – Edição por André Luiz

Um dos grupos pioneiros do Death Metal melódico, os suecos do Dark Tranquillity possuem um vasto catálogo musical, construído ao longo de seus 28 anos de carreira. Muito embora o primeiro full lenght tenha sido lançado em 1993, foi o álbum de dois anos depois, o clássico ‘The Gallery’ que colocou a banda como um dos expoentes do movimento de Gotemburgo ao lado dos também suecos In Flames e At The Gates, enfatizando as harmonias de guitarra adicionadas no death metal tradicional. Em 2016, o grupo lançou seu mais recente trabalho de estúdio, ‘Atoma’, cuja recepção de crítica e público alavancaram mais uma vez o nome do grupo, possibilitando o anúncio de uma grande tour a qual passará pela América Latina nas próximas semanas.

Em conversa exclusiva com o Portal Metal Revolution, o frontman e membro fundador Mikael Stanne explicou como foi o processo de criação e recepção de ‘Atoma’ mundo afora, a importância de Martin Henriksson que deixou as guitarras do Dark Tranquillity para comandar os bastidores do grupo, a adaptação da banda às novas tendências tecnológicas, novas composições e manda o recado sobre a nova tour no Brasil: “será incrível!”. 

Equipe MR – Olá, Mikael! Em nome do Metal Revolution, agradeço a oportunidade de entrevistá-lo. No próximo mês o Dark Tranquillity virá ao Brasil pela terceira vez, para realizar dois shows. Fale um pouco sobre as suas lembranças das duas primeiras passagens por aqui, e as expectativas para retornar ao nosso país.
Mikael Stanne – Eu me lembro da nossa primeira vez no Brasil, nós estávamos em turnê por cinco semanas, eu acho, primeiramente nos Estados Unidos, e depois por mais 10 dias pela América do Sul e Latina. Foi uma coisa muito difícil, nós não dormimos durante esses 10 dias, então tudo é meio que um borrão para mim, porque nós não conseguimos descansar o suficiente. Mas os shows foram incríveis, foi uma honra tocar para os metalheads aí do outro lado do mundo. Eu me lembro de quando eu era adolescente, era o máximo pensar em tocar em países como Brasil, Chile e Argentina, e depois de tantos anos nós finalmente pudemos tocar para esse público, conhecer essas pessoas. Isso foi incrível pra mim, e ainda é! Agora voltaremos pela terceira vez, para dois shows no Brasil, e a paixão dos fãs, é diferente de qualquer coisa que estamos acostumados a ver na Europa, sem dúvidas. Há uma coisa diferente na cultura do metal, essa devoção, ver pessoas que vem de diversas cidades distantes para os shows… As vezes as bandas não dão tanto valor para isso, mas isso não deveria acontecer, porque é algo incrível. Não vejo a hora de voltar e comer ótimas comidas, ver nossos fãs. Começaremos pelo México, faremos mais alguns países e logo estaremos no Brasil, então estaremos descansados, a banda está tocando incrivelmente bem ao vivo, e eu simplesmente não posso esperar por isso. Será incrível!

Equipe MR – No ano passado vocês lançaram o álbum ‘Atoma’, que foi muito elogiado pela crítica, e já é inclusive  considerado por muitos fãs um clássico. Fale um pouco sobre o processo de composição deste trabalho.
Mikael Stanne – Foi um álbum difícil para se escrever, por diversos motivos. Nós estivemos em tour por muito tempo, então não sabíamos exatamente qual direção tomar, e também Martin Henriksson saiu da banda no começo do ano passado, então nós estávamos reavaliando tudo e tentando descobrir o que fazer. O álbum veio de sensações como frustração, raiva, e até um pouco de melancolia sobre o que estava acontecendo em nossas vidas pessoais. Há um pouco de tristeza nele, um pouco de frustrações sobre o estado atual do mundo… Então quando nós finalizamos o álbum, não sabíamos muito bem o que esperar, como seria a recepção por parte do público. Será que está muito leve, muito pesado, muito pessoal? Eu não sei, eu não sabia. Eu o mostrei para alguns amigos e todos amaram, mas eu pensei, “será que estão falando sério?”. Mas então o álbum foi lançado, e está sendo incrível ver a recepção quando nós tocamos as músicas novas ao vivo. E nós tocamos muitas delas nos shows, na verdade.  Soam muito bem, e está sendo ótimo tocá-las ao vivo!

Equipe MR – Falando sobre tocar ao vivo, conte um pouco também sobre o que podemos esperar nos set lists dos shows no Brasil.
Mikael Stanne – Bom, montar um set list é algo que sempre me deixa louco, é sempre um saco, pois temos muitas coisas que poderiam ser tocadas ao vivo, e é sempre difícil escolher. Mas é claro, teremos bastante coisa nova, mas além das músicas novas, tocaremos algumas coisas antigas, as favoritas dos fãs, e algumas surpresas para que possamos nos desafiar também.

Equipe MR – Você comentou há pouco sobre a saída do Martin (Henriksson), mas apesar de ele não estar mais tocando na banda, ele ainda está ligado a vocês, certo? Conte um pouco sobre como ocorreu essa saída, e como é o trabalho dele com a banda atualmente.
Mikael Stanne – O Martin era um cara encarregado de muitas coisas, como agendar as turnês, fazer reservas de voos e viagens, o tempo todo… Ele sempre estava no controle, e queria poder fazer tudo da forma correta, então preferia não correr o risco de deixar as coisas nas mãos dos outros. O que é algo muito bom, todo esse cuidado. Mas por outro lado, quando se pensa assim, os shows acabam ficando em segundo plano. Então ele falou que já não estava mais se sentindo tão inspirado e criativo musicalmente, não estava mais se divertindo e sentindo o que fazíamos. Quando alguém não se sente mais feliz ou confortável com a situação, sempre conversamos para vermos o que podemos fazer, e chegamos à conclusão de que ele precisava de um tempo para depois voltar, mas acabou não retornando. Então concordamos que ele não fosse mais um membro da banda como músico ou compositor, mas sim como manager, que é o que ele continua fazendo para nós: continua agendando nossos shows, cuidando de detalhes, das finanças… Coisas que para mim são super entediantes, mas que ele gosta de fazer.

Equipe MR – Apesar de vocês já terem uma grande tour para fazer, existem planos para um novo trabalho de estúdio, ou algo que já venha sendo pensado? 
Mikael Stanne – Na verdade não, não temos músicas novas no momento. Eu sei que Martin e Anders estão trabalhando em algum material novo agora, mas nada concreto. Esta será uma longa turnê, vamos fazer uma outra turnê europeia logo após essa (turnê) americana que faremos em breve, então precisaremos de um tempo após voltarmos para casa no final da excursão e pensar em coisas novas. Não precisamos ter pressa para começar a escrever algo novo no momento, precisamos colocar nossas cabeças no lugar para fazermos a coisa certa no momento certo.

Equipe MR – Sendo um dos criadores do Death Metal Melódico, fale um pouco sobre as diferenças que você enxerga nesse cenário desde o início da sua carreira, tanto no âmbito nacional (na Suécia) como no âmbito mundial.
Mikael Stanne – Eu acho fascinante ver o quanto o metal e seus subgêneros cresceram! Quando era criança eu achava incrível essa coisa de ter bandas, fazer shows, etc. Eu não acho que nós temos que nos adaptar ao que está acontecendo em cada momento. Quando começamos, nós queríamos fazer algo que soasse novo e original, diferente do que tínhamos no dado momento. Nós sabíamos que era algo fora do metal tradicional que as bandas faziam na época. Colocamos efeitos e teclados no metal, sem saber exatamente o que fazíamos, se estávamos fazendo algo legal ou destruindo as músicas. Foi interessante e começou a funcionar, então nós mantivemos esse estilo, e as pessoas começaram a entender o que estávamos fazendo.

Equipe MR – Com a evolução da tecnologia, a indústria musical mudou completamente. Hoje em dia as bandas não vendem CDs como antigamente, as turnês são muito mais intensas… Qual sua visão sobre os lados positivos e negativos desse formato da indústria musical atual?
Mikael Stanne – É algo que tem dois lados; claro que é algo incrível estar em contato com cada fã, com cada banda no mundo, e poder ter acesso a praticamente qualquer álbum existente através da internet. É incrível, mas eu sou nostálgico às vezes, quando me lembro de olhar a minha caixa de correio e alguém ter mandado uma fita cassete com uma demo, ou algo assim por correio.  É um grande choque comparar o quanto as coisas mudaram de lá pra cá. O lado bom desse formato novo da música, é que quando alguém ouve algo que gosta, faz questão de compartilhar isso com todo mundo, o que faz com que as pessoas conheçam bandas que jamais ouviriam em outros tempos, e isso acaba também unindo a comunidade do metal. Hoje em dia é super fácil acessar qualquer tipo de música e estilo, e ao mesmo tempo que é algo bom, isso tira um pouco do mistério das coisas. Antigamente você lia as entrevistas com as bandas em revistas e imaginava como os caras eram, como falavam, pois não havia tanto acesso a vídeos, entrevistas e outros conteúdos. Nós trocávamos fitas com vídeos ou áudio das bandas tocando ao vivo, era a única forma de termos acesso aos shows. E hoje o show já está disponível na internet logo depois que acaba! Claro que ter acesso à quase qualquer música pagando assinaturas de Spotify ou programas do tipo é ótimo, você pode ouvir coisas novas e antigas sem a menor dificuldade. É incrível, mas para nós, que escrevemos músicas, é algo meio estranho. Nós estávamos acostumados a ser pagos para escrever músicas, e isso mudou muito. É claro que ainda recebemos alguma coisa pelas vendas de CDs, mas não chega nem perto do que era antes! É um pouco frustrante, mas nós não podemos fazer nada sobre isso, temos apenas que aceitar. Hoje quando fazemos turnês, nós ganhamos mais dinheiro vendendo camisetas do que vendendo nossos álbuns. O que é louco, mas como sabemos desta realidade, nós sempre levamos nossos merchandisings aos shows. Hoje em dia é mais importante do que nunca comprar as coisas para apoiar as bandas que você gosta, apoiar em crowdfundings e coisas do tipo… Comprar o álbum, comprar camisetas, merchandisings… Isso realmente ajuda as bandas, e faz com que seja possível continuarmos com as turnês e os trabalhos. Em resumo, com esse novo formato que vivemos, as bandas são obrigadas a fazer muito mais turnês, o que é ótimo para mim, pois amo isso, hoje em dia as bandas não podem se dar ao luxo de fazer poucos shows.

Equipe MR – Você começou sua carreira em Gotemburgo, que assim como Estocolmo e a Suécia como um todo, é o berço de excelentes bandas de diversos estilos, principalmente dentro do rock, metal e suas vertentes. Quais fatores você diria que colaboram para que a Suécia traga ao mundo tantas bandas de excelente qualidade?
Mikael Stanne – Boa pergunta! Eu acho que pelo que eu tenho de experiência, a Suécia é um país forte musical e culturalmente, principalmente após o ABBA, que eu acho que foi a primeira banda sueca a ser exportada para o mundo todo e se tornar tão grande. Nós temos um background musical e cultural muito forte, o que permitiu que novas bandas de diversos estilos dentro do rock e metal fossem surgindo ao longo dos anos. Para a cena do metal, eu acho que começou nos anos 70 e 80, com bandas locais tocando em pequenos lugares, e acabaram inspirando as pessoas a tocarem e entrarem nessa cena. Todo mundo queria entrar em uma banda para poder tocar, se reunir com os amigos.  O que fazíamos era falar sobre metal, sobre música, tomar cerveja… Não havia muito mais o que se fazer na época, então as pessoas se reuniam muito para isso, e começaram a fazer coisas que fossem originais e diferentes, o que criou essa diversidade de estilos vindos da Suécia. Acho que isso acendeu uma faísca na imaginação das pessoas, que começaram a se apoiar e criar uma cena muito legal. É incrível ver isso, eu não poderia ficar mais feliz por ver a repercussão das bandas suecas pelo mundo, ver bandas de cidades minúsculas fazendo sucesso em todo o planeta!

Equipe MR – Mikael, para encerrar, gostaria de agradecê-lo mais uma vez por conversar conosco, e pedir para que deixe um recado para os leitores do Metal Revolution, e seus fãs brasileiros.
Mikael Stanne – Eu estou muito, muito animado para voltar. Agradeço ao público brasileiro por ser tão incrível. Será fantástico, quero agradecê-los pelo convite de voltar aí novamente para mais dois shows, não posso esperar. Será muito divertido, uma turnê incrível! Vejo vocês em breve!

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