Genocídio: um dos álbuns mais honestos que uma banda poderia realizar – entrevista exclusiva com Murillo Leite

Entrevista por André Luiz – Imagens por divulgação – Edição por André Luiz

Uma das precursoras do Heavy Metal no Brasil, primeira banda de metal extremo de São Paulo, mais de 30 anos de história e um legado que se estende em nove álbuns de estúdio além de um DVD/CD ao vivo. O Genocídio voltou aos holofotes com o álbum ‘Under Heaven None’, um dos melhores lançamentos de 2017, e aporta na capital paulsita para se apresentar no Liberation Festival ao lado de nomes como Kreator, Arch Enemy, Walls Of Jericho e Excel. Confira entrevista exclusiva com o vocalista e guitarrista da banda Murillo Leite, abordando temas relacionados ao mais recente álbum, a trajetória do Genocídio e a cena metal no país.

André Luiz – Primeiramente obrigado pela entrevista. Mais de 30 anos de estrada, nove álbuns de estúdio – além de um DVD/CD ao vivo –, shows por todo Brasil ao lado de influências mundiais como Venom, Testament, Destruction, Cannibal Corpse, Amon Amarth, Napalm Death, Obituary… Do início nos anos 80 até os tempos atuais, quais principais diferenças vocês poderiam destacar na questão do profissionalismo da cena metal? Quais barreiras permanecem impedindo um crescimento ainda maior da música pesada no Brasil?
Murillo Leite – Muito obrigado a você, André e Metal Revolution! Creio que melhoramos em muitos aspectos, por exemplo, os músicos já “nascem” com muita informação à disposição para evoluírem musicalmente, temos acesso a instrumentos e estúdios de boa qualidade, consequentemente o nível das bandas cresce ano a ano. A Internet é uma ótima ferramenta de divulgação nos dias atuais, apesar de que toda a interação que ela proporciona tende a criar uma bolha virtual onde as pessoas se acomodam e deixam de ir aos eventos do estilo. Acredito que a maior barreira que encontramos é a própria falta de profissionalização nos bastidores, temos produtores atuando bem nesse nicho, mas infelizmente eles são minoria, portanto, se os eventos não são realizados com a excelência que o público exige, o metal acaba não atraindo as pessoas e pior, é latente que temos renovado pouco o público e isso também afeta o crescimento da cena.

André Luiz – O álbum ‘Under Heaven None’, lançado em 2017, foi produzido, mixado e masterizado pelo próprio Rafael Orsi, guitarrista do grupo, trazendo uma nitidez e clareza enfatizando o peso dos timbres instrumentais e vocais bem empregados do Murilo. A arte do álbum também é de autoria de um integrante da banda, Wanderley Perna, sintetizando o conteúdo sonoro deste full lenght. Como se deu a opção “caseira” nos trabalhos de ‘Under Heaven None’? A banda entrou em estúdio com as músicas prontas ou as ideias foram desenvolvidas durante as gravações?
Murillo Leite – ‘Under Heaven None’ é um dos álbuns mais honestos que uma banda poderia realizar, sem falsa modéstia! Foi uma obra concebida a oito mãos literalmente, optamos por não termos convidados especiais e a escolha pelo método digamos hermético foi por questões de tempo, uma vez que meu filho nasceu em meio ao processo, e também de ordem financeira e criativa. Não queríamos a interferência de nenhum elemento externo para tentarmos soar o mais íntegro possível, e como o Rafael evoluiu bastante o seu lado produtor decidimos que ele conduziria este processo, o que nos deixou extremamente satisfeitos com o resultado alcançado. O Perna já é responsável pela parte gráfica do Genocídio há algum tempo então foi natural que ele criasse o conceito visual do álbum, que também ficou de alto nível. Sobre as músicas, muitas ideias entraram prontas enquanto outras foram aperfeiçoadas no estúdio. Temos trabalhado de forma “caseira” desde o ‘The Clan’ (2010), nos sentimos confortáveis nesse modelo e as pessoas podem pensar que dessa forma a produção foi mais tranquila, mas foi o inverso, a cobrança foi muito maior para chegarmos ao produto final.

André Luiz – Este mais recente trabalho traz as principais características do Genocídio mescladas a certas nuances as quais a banda costumeiramente inclui em sua música: “Winded Sleep” e “Death Of A Dream” por exemplo trazem uma sonoridade soturna arremetendo a uma mescla de black e doom metal; “I Play Your God No More” já possui nuances modernas tendendo ao hardcore; mas não há como deixar de citar a velocidade presente na faixa título, em “Requiescat In Pace” e “You’re All Sick”. Como a mescla de inspirações musicais dos integrantes influenciaram em ‘Under Heaven None’? Comente sobre suas preferências pessoais…
Murillo Leite –
Sua análise foi muito precisa, o Genocídio é uma banda sem amarras criativas, flertamos com diferentes estilos nas composições que criamos mas fazemos isso sem descaracterizar a sonoridade da banda. Neste álbum, conforme você mesmo identificou, tivemos influências de HC e black metal. No ‘In Love With Hatred’ (2013) havíamos experimentados bastante coisa de thrash, vai muito do momento vivido pela banda na época de concepção do álbum. Temos influências comuns e individuais, que podem refletir no caldeirão criativo da banda, eu particularmente escuto mais velharia mesmo (risos). Vejo que há bandas mais novas que me agradam como Ghost, Gojira, Behemoth e nacionais como Lazarus Taxon, Goatlove, Lacerated and Carbonized, mas creio que as composições são produto das influências básicas tais como Black Sabbath, Venom, Metallica, The Sisters of Mercy, Voivod e tantas outras.

André Luiz – “Somberkkast” traz uma faceta em violão acústico a qual encerra o UHN após passeios por várias nuances já citadas na pergunta anterior. Como surgiu a ideia deste “armário sombrio” (na tradução literal do holândes)?
Murillo Leite –
Foi uma ideia do Rafael e que nós curtimos muito! Ele sempre grava temas de violão e resolvemos incluir essa “Outro” para finalizar o álbum de maneira enigmática, dando um sentido de continuidade para um próximo álbum. Nunca havíamos gravado uma instrumental em nossos discos, então, resolvemos mudar essa escrita. O título é extremamente interpretativo, você chegou a um entendimento, outras pessoas compreenderam como “caminho escuro” e assim vai, sem regras ou pré-conceitos.

André Luiz – As letras do ‘Under Heaven None’ possuem temas expressados de forma direta, mas gostaria de destacar duas faixas em especial: “Mediaevil” e “Them Arsonists”. Comente, por favor, sobre a mensagem por trás das músicas deste álbum e como no processo de criação e escolha de sequenciamento das faixas houve a interligação de assuntos os quais culminaram em um trabalho tão sólido quanto o apresentado em UHN.
Murillo Leite –
“Mediaevil” é sobre como as certas pessoas manipulam a mídia para disseminarem seus próprios interesses, na grande maioria com objetivos maléficos a serem alcançados. Isso vem desde longe na história da humanidade, cito por exemplo, Joseph Goebbles, o responsável pelo marketing do nazismo, que procurava enaltecer o regime apesar das atrocidades que ocorriam nos campos de concentração. Já em “Them Arsonists” retrata a frustração que sentimos quando houve o incêndio do Museu da Língua Portuguesa em 2015 em São Paulo, muitas obras da nossa cultura sendo incineradas e o descaso do governo com a nossa história, a exemplo do que aconteceu no Museu Nacional no Rio de Janeiro recentemente. Abrindo um parêntesis, “Death Of A Dream” merece destaque pois foi inspirada no maior acidente ambiental que o país já presenciou, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana/MG, e que até hoje causa consternação pela impunidade

André Luiz – Após cinco anos, João Gobo deixou a banda e o baterista Gil Oliveira (Necromesis) se juntou ao trio Murillo Leite (guitarra/vocal), Rafael Orsi (guitarra) e Wanderley Perna (baixo). Como tem sido este período em estrada com o – agora nem tão novo assim – integrante? Há planos para álbum de inéditas em um futuro não tão distante e neste quadro, como se encaixa a colaboração de Gil neste processo – músico de estrada ou integrante fixo com ideias neste vindouro trabalho?
Murillo Leite –
O Gil já havia tocado conosco quando abrimos para o Napalm Death em São Paulo em 2016, substituindo o João, que estava impossibilitado de tocar na época. Quando o João saiu foi a primeira pessoa que pensamos para o posto e creio que acertamos nessa escolha. Além de pessoalmente ser uma pessoa de convívio fácil, é um baterista de muita técnica e qualidade, quesitos indispensáveis para um baterista de banda de extremo. Temos planos e até esboços de sons novos, mas está tudo muito preliminar, não conseguimos saber que rumo exatamente seguiremos. Iremos de qualquer forma agregar os atributos e influências do Gil para as novas músicas.

André Luiz – A divulgação do UHN contou primeiramente com vários depoimentos, e posteriormente o lançamento em lyric video da faixa título “Under Heaven None” e a liberação da faixa “Requiescat In Pace”. Mas o grande destaque ficou para vídeo clipe da versão de “Black Vomit” do Sarcófago, penúltima faixa do álbum de 2017, o qual durante sua apresentação foi anunciado como “uma homenagem a todas bandas de metal extremo do país”. Como se deu a escolha destas faixas para liberação ao grande público e do clássico do Sarcófago em vídeo clipe? A forma como faz-se uso do marketing digital pode apontar o diferencial entre ser destaque ou apenas mais uma banda no meio? Se considerarmos os tempos atuais com discussões tão exacerbadas em mídias sociais…
Murillo Leite –
Na verdade quisemos fazer uma grande homenagem ao metal brasileiro com essas atitudes. Os depoimentos nos deixaram extremamente contentes, todos que contribuíram fazem parte da história do metal do Brasil e ficamos honrados em ler os relatos. O cover do Sarcófago foi ideia do João Gobo e concordamos que seria interessante gravar uma banda brasileira desta vez e acredito que fizemos uma versão que faz jus ao legado deles. Sobre “Under Heaven None” e “Requiescat In Pace” escolhemos essas músicas pelo impacto que ambas causam, seriam cartões de visita que representariam o conceito sonoro do disco. O marketing digital é ferramenta imprescindível para a divulgação do material nos dias de hoje mas se a banda não tem qualidade ou originalidade dificilmente vai se sobressair em meio ao imenso cenário existente. Sobre as discussões há muita polarização e nós preferimos focar nos nossos objetivos, pois não somos cientistas políticos e sim headbangers que amam tocar o metal, isso é que importa para nós!

André Luiz – Com um currículo grande ao lado de bandas internacionais, o Genocídio foi escalado para o Liberation Festival ao lado de nomes como Kreator, Arch Enemy, Walls Of Jericho e Excel. Qual a importância destes grandes festivais para a cena metal no país? Em uma visão ampliada, considerando Monsters Of Rock, Rock In Rio, Porão do Rock, Maximus Festival entre outros, a presença de bandas nacionais em eventos de grande porte contribui ou deprecia – na visão de vocês – a cena nacional?
Murillo Leite –
Máxima importância, a visibilidade é incrível e a infraestrutura digna para mostrarmos nosso material. A presença de bandas nacionais deve ser sempre exaltada, pois muitas pessoas geralmente não vão aos shows da cena underground, portanto, os eventos acabam sendo relevantes para que o público conheça ou veja o que o metal brasileiro tem a oferecer. Estamos muito honrados com a participação no Liberation Fest 2018 em São Paulo, um festival que procura trazer ótimas bandas de estilos diversos e também pelo fato de sermos muito fãs de Kreator, uma grande influência do Genocídio!

André Luiz – Agradecemos a oportunidade desta entrevista, deixe seu recado para leitores do Portal Metal Revolution e fãs da banda.
Murillo Leite –
Muito obrigado pelo espaço, André e Metal Revolution, continuem fazendo deste portal uma referência para a cena! E aos fãs, muito obrigado por nos acompanharem nesses mais de 32 anos de estrada, nos vemos no Liberation Fest 2018!

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