FAITH NO MORE
ABERTURA: MOPTOP
CITIBANK HALL, RIO DE JANEIRO - RJ

Review por Rodrigo Gonçalves - Colaboração: Antonio Chacar - Edição por André Luiz
Fotos por Filipe Limas (Flick do Filipe - metalrevolution.net)

Ausente dos palcos há mais de 11 anos, o Faith No More anunciou a retomada de suas atividades em 24 de fevereiro desse ano para uma turnê chamada “The Second Coming Tour” com a formação que gravou o disco “Álbum Of The Year” em 1997. Em meados de setembro fora anunciado o retorno ao Brasil, e também à cidade onde fizera história no Rock In Rio II para um show que muitos acharam que não fossem ter a oportunidade de rever, principalmente o público que era muito pequeno em 1991. E sem medo de errar, lhes digo que este foi o melhor show do ano no Rio de Janeiro! E olha que 2009 foi um ano bastante prolífero em termos de shows na cidade maravilhosa, tivemos alguns dos maiores nomes da cena tocando na cidade esse ano como Iron Maiden, Heaven & Hell, Kiss, Radiohead, dentre outros.

Faith No More - por Filipe Limas  (metalrevolution.net)

Durante os mais de dez anos separados, nenhum dos integrantes da banda se afastou completamente da música, engatilhando vários projetos paralelos. O baterista Mike Bordin tocou durante alguns anos com Ozzy Osbourne; Billy Gould por algumas vezes com o Brujeria e até mesmo fundou sua própria gravadora; já o guitarrista Jim Martin (apesar de não fazer parte dessa tour, tendo sido substituído por John Hudson que também tocou com a banda) fez algumas participações especiais em alguns projetos (dentre eles uma ponta em um álbum do Primus) e lançou um disco solo. O mais talentoso da banda foi também o que conseguiu o maior sucesso em suas empreitadas solo, mesmo que não tenha buscado isso em momento algum. Mike Patton formou seu próprio selo, Ipecac, retomou as atividades do Mr. Bungle e conseguiu bastante aprovação por parte dos fãs e da mídia com o Fantômas.

Quando cheguei ao Citibank Hall confesso que fiquei com a impressão de que esse show seria mais um fracasso de público, por conta dos poucos presentes no interior do shopping onde fica localizada a casa de shows carioca (em dias de grandes eventos é praticamente impossível circular). Mas uma rápida circulada na parte de fora do shopping logo me fez perceber o porquê de o interior estar tão vazio: a fila para compra de ingressos estava muito grande, havia muita reclamação devido a demora na compra dos bilhetes, naquela altura muitos já temiam perder o início do show. Claro que a culpa não é somente da casa de shows, afinal de contas os ingressos começaram a ser vendidos com bastante antecedência em vários pontos e o preço não estava salgado se compararmos com outros grandes shows que aconteceram na cidade esse ano. Aliás, o sucesso de público desse show só vem a comprovar que os cariocas comparecem sim, quando são bem tratados, os preços são justos e as vendas contam com um mínimo de organização. Mais uma vez provamos que a cidade pode e deve ser palco para grandes eventos, que o fato de o AC/DC não passar por aqui nesse ano não tem nada a ver com o público carioca.

Com metade da pista VIP vazia e o público ainda chegando, entrou no palco por volta das 21h30m a banda carioca Moptop. Confesso que não conhecia os caras. Nos últimos tempos, ando completamente por fora da cena do rock nacional. Ouvi comentários na fila e na grade que os caras eram emos. Pensei que lá viria ‘bomba’, mas foi uma grata surpresa. Nada a ver com os chorões da moda, e seguindo uma linha mais de garage rock (com pitadas bem de leve do rock nacional dos anos 80), os caras faziam um som agradável de se ouvir, com um instrumental bem à-la Strokes. A platéia que esperava mais um daqueles shows cansativos, a mera encheção de linguiça, curtiu e deu moral pros caras. Tocaram cerca de oito músicas, bem rápidas e dinâmicas, e cumpriram bem o papel de qualquer banda de abertura: divulgar seu som, não deixar o público irritado e, se possível, arrancar uns aplausos. Ponto pros caras! Ouvi dizer que em Porto Alegre os novatos que abriram o show por lá não tiveram a mesma sorte (e competência), e aí foi uma baixaria só...

Lembram que eu falei que muitos temiam perder o começo do show por conta da demora para compra de ingressos? Pois bem, como já é praxe no Citibank Hall, a entrada da banda no palco foi atrasada ao máximo para que todos pudessem entrar sem tumultos e assistir ao show sem problemas. Problema é que atrasos como esses, em um show realizado em dia de semana, acabam causando muito transtorno para aqueles que trabalham no dia seguinte e dependem de transporte público para conseguir retornar para casa.

Após o término do show da banda de abertura, cinco minutos antes do horário marcado para o inicio do show do Faith No More, os roadies da atração principal da noite logo entraram em cena e correram afim de deixar tudo pronto para a apresentação dos americanos. E nesse embalo que às 22h50m, cerca de cinquenta minutos após o horário marcado, de maneira bem simples, John Hudson, Roddy Bottum, Billy Gould, Mike Bordin e Mike Patton foram um a um entrando no palco, assumindo suas posições e dando início aos trabalhos com a instrumental “Midnight Cowboy”, cover da musica composta por John Barry e que está presente no álbum Angel Dust de 1992. Um fato que chamou a atenção foi o teor de simplicidade da apresentação. Aliás, tão simples quanto à entrada dos músicos em cena foi a decoração do palco, que contava apenas com uma longa cortina vermelha e os instrumentos arrumados sobre o palco.

Faith No More - por Filipe Limas  (metalrevolution.net)

Sem tempo a perder, a banda seguia fazendo a alegria dos presentes ao dar a eles tudo àquilo que queriam ouvir como a clássica “From Out Of Nowhere” e as bastante pesadas ‘Be Agressive” e “Caffeine”. Antecedendo “Evidence”, ocorreu o primeiro dos muitos momentos em podia-se confundir a nacionalidade do frontman, tamanha a intimidade que o mesmo demonstra com a língua pátria. O vocalista dedica a música ao seu primeiro grande amor: “Íris Lettieri” (antiga locutora do Aeroporto do Galeão, que anunciava os vôos). Detalhe é que a musica foi toda cantada em português, ou ao menos foi isso que ele tentou fazer.

Na sequência, era chegado um dos momentos mais esperados do show e, “Surprise! You’re Dead!” levou o público ao delírio. “Last Cup Of Sorrow” e “Ricochet” precederam aquele que de antemão imaginei ser o ponto alto da apresentação, mas que acabei me enganando. Se “Easy”, não teve o mesmo apelo que eu esperava que fosse ter, ao menos serviu para mostrar toda a potência, técnica e controle que Patton tem sobre sua voz. Apesar de não cantarem a plenos pulmões como achei que fossem fazer, “Epic” foi uma das faixas mais apreciadas pelos fãs, inclusive, era possível ver muitos deles tentando reproduzir a famosa dancinha de Mike Patton no clipe desta música. É bom ressaltar que foi exatamente durante a execução de dois dos seus maiores sucessos comerciais, que ficou evidente a qualidade de som que o espetáculo teve. Os instrumentos eram ouvidos com bastante clareza, de todos os pontos do Citibank Hall, algo que contribuiu e muito para a qualidade do espetáculo e veio a mostrar porque esta é considerada uma das melhores, quiçá a melhor casa de shows do país.

Esqueçam o que falei mais acima sobre a pouca participação do público. “Midlife Crisis” foi cantada tão alto, mas tão alto que os presentes se encarregaram de terminar a música e deixaram Patton simplesmente abismado a ponto de ao final do último acorde, erguer seu microfone, olhar para os companheiros de banda e falar em bom português “Banda, o que dizer?”. Sensacional! Em seguida foi à vez de “Caralho Voador”, música que tem um dos títulos mais engraçados da história do rock e que novamente foi toda cantada em português, ou ao menos algo parecido com isso. Na sequência a primeira surpresa da noite, o clássico de autoria de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Ela É Carioca, foi cantado por Mike que apontava insistentemente para si mesmo, mostrando que ele mesmo já se considera um carioca. Após “The Gentle Art Of Making Enemies”, “King For A Day,” foi responsável por dar uma esfriada no show, contou com muitos efeitos sonoros que deixaram à canção longa demais e só serviram para esfriar o público, nessa hora foi comum ver muitas pessoas deixando a pista e formando filas no bar.

“Ashes To Ashes” e “Just A Man” encerram a primeira parte do show. Os músicos se despediram, mas logo retornaram ao palco tocando a introdução do tema do filme “Scarface”, do lendário personagem Tony Montana, interpretado por Al Pacino, de quem Mike parece ter tirado inspiração para a sua vestimenta naquela noite. “We Care A Lot” empolgou demais, fez todo mundo cantar alto e a cada vez que o refrão era cantado, os músicos sorriam e saudavam o público, como se quisessem dizer que realmente se importavam muito com todos aqueles que estavam ali. Querem uma prova do que eu acabei de escrever? Após mais uma saída de palco e retorno logo depois, a banda resolve atender ao pedido da platéia e toca o clássico Falling To Pieces e deixaram bem claro o porquê resolveram ceder ao apelo dos cariocas ao dizerem em alto e bom som antes de começar a musica “Só porque é no Rio”. Detalhe curioso é que a música foi tocada claramente de maneira improvisada, algo perceptivo devido aos erros cometidos durante a execução e mais ainda pelo fato de Patton ter esquecido a letra em alguns momentos da mesma, sendo auxiliado por seu xará Bordin. Mas quem se importa? Esse foi o desfecho perfeito para uma noite maravilhosa. O Faith No More deixou o palco e todos puderam ir para casa com a certeza de que presenciaram algo histórico, mesmo que muitos ainda em "estado de choque" não tivessem se dado conta disso. Durante os pouco mais de 90 minutos em que esteve no palco o Faith No More empolgou, emocionou e fez a alegria de quase seis mil fãs de várias faixas etárias, de vários estilos diferentes que compareceram ao Citibank Hall na quente noite de quinta feira. Um show para ficar marcado na história, que teve na figura de Mike Patton o seu destaque absoluto. Chega a ser injustiça eleger apenas um destaque em um show como esses, mas Patton merece, o frontman fez literalmente um show a parte. Abusou da irreverência, demonstrou versatilidade, encantou e emocionou a todos no tempo que passou sobre o palco confirmando a todos que todo o sucesso e reconhecimento que alcançou em sua carreira não vieram em vão.

Faith No More - por Filipe Limas  (metalrevolution.net)

Lembro que em julho de 2007 tive a oportunidade de assistir aquela que estava sendo tratada como a última apresentação da carreira da ótima banda Talisman. Lembro também de ter saído de lá tão empolgado e encantado com a qualidade da apresentação, que dias depois fiquei imaginando se aquela seria mesmo o ultimo show da história da banda, pois, a resposta da platéia foi tão boa e os músicos pareciam tão felizes e realizados, que era difícil de acreditar realmente que aquela banda encerraria as atividades. Após o show do Faith No More, durante o caminho de volta para casa me senti tomado pela mesma sensação que tive naquele dia 7 de julho de 2007. Daí em diante muitas dúvidas e teorias passaram pela minha cabeça e apenas uma certeza: seria um desperdício uma banda tão talentosa e em tanta sintonia com os seus seguidores não gravar pelo menos mais um disco de estúdio e escrever mais capítulos gloriosos em sua história. No espírito da noite e da própria história de diversidade musical contida no som da banda, os mais radicais que me perdoem, mas encerro essa matéria com a famosa frase de um samba lançado na década de 90 e que expressa perfeitamente o sentimento da maioria dos que esperam para ver o que acontecerá com o Faith No More daqui em diante: “Sonhar não custa nada...”.

AGRADECIMENTOS
Quero deixar os meus agradecimentos ao Diego, assessor de imprensa da t4f, pelo tratamento dispensado a equipe de um homem só do Metal Revolution. Muito obrigado pela sensibilidade em compreender e ajudar este escriba a resolver um problema de última hora que impediu que a nossa cobertura desse show não tivesse a mesma qualidade de outrora. Ao amigo Antonio Chacar Hauaji Neto pelos comentários e ajuda em alguns momentos desse review. Por último, estimo as melhoras ao meu colega de site e fotógrafo da equipe carioca Bruno Prado. Suas fotos fizeram falta!